Corpo de escritas

A escrita, para mim, sempre foi uma intensa experiência corporal. Não é exterior, palavras abandonadas no papel (ou na tela), mas também não é interior, transcrição de um pensamento desencarnado. Escrever entrecruza meus sentidos, me faz transitar por diversas linguagens. É letra, mas também movimento, imagem, som. Escrever me agita, é um diálogo do corpo que sou com o mundo que me circunda; toma emprestado outras vozes, tempos e lugares para constituir a minha voz. Escrevendo, nunca estou sozinho. Nessa madrugada de escrita de tese, Merleau-Ponty e Yann Tiersen me acompanham…

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Notas sobre a transmissão dos Jogos Olímpicos 2 – Para não agendar, Globo cobre apenas resultados

A Rede Globo pareceu intensificar a posição de não-agendamento dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 (JO 2012), ou seja, ela não quer e não vai promover, gerar demanda, fazer publicidade, criar audiência para o evento. Afinal, os jogos são transmitidos pela empresas concorrentes. Ao que tudo indica, a Globo não falará do que está por vir (programação) e sim do que já aconteceu (resultados) – ainda assim brevemente, seguindo a política de restrições do uso de imagens anunciada oficialmente ontem nos seus telejornais e páginas na internet.

Com a nota de esclarecimento sobre a política da emissora durante a cobertura dos JO 2012, a Rede Globo se justifica e tenta manter sua credibilidade afirmando que seguirá os princípios da informação e dos direitos esportivos. Por outro lado, busca abafar a grande repercussão e estranhamento que a ausência das notícias olímpicas estão causando. Tal repercussão está nas redes sociais, como Facebook e Twitter, mas também nas notícias das empresas concorrentes, como a Record e o portal Terra, que possui os direitos de transmissão dos jogos para a internet (a cobertura online será assunto do próximo post). A Record, inclusive, manifestou-se antes e depois da Globo, primeiro explicitando qual seria a sua política de cessão de imagens dos jogos para as demais emissoras e depois se contrapondo a algumas informações da rede carioca.

Tal tendência de silêncio da Rede Globo já estava explícita e foi anunciada aqui no blog pelo professor Giovani Pires: raras vezes a organização do evento e a preparação dos atletas para os JO 2012 foram noticiadas na grade da programação da emissora nos últimos meses. A seleção brasileira de futebol masculino, repleta de atletas com menos de 23 anos, em óbvia preparação para os JO 2012 durante os últimos amistosos transmitidos pela Rede Globo, foi identificada, via de regra, como time base para a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e não como seleção olímpica.

Mas o que mostrou o radicalismo do silêncio foi o fato de que a emissora omitiu a existência das partidas do futebol feminino durante todo o dia de ontem, dentre as quais havia a presença da seleção brasileira. As partidas só saíram da escuridão nos telejornais da noite: Jornal Nacional e Jornal da Globo.

Em tempo: os jogos do futebol masculino começaram esta manhã com diversas partidas. À tarde teremos a primeira partida da seleção brasileira do multimidiático Neymar. A presidente Dilma está em Londres para a abertura dos JO 2012 (e já esteve em reunião com a cúpula da Record, dentre eles Edir Macedo…). Acabo de acompanhar o Globo Esporte de Santa Catarina. Dentre as chamadas do início do programa e do final de cada bloco, nenhuma referência ao JO 2012. Durante o programa esportivo, apenas uma pequena síntese dos acontecidos de ontem (jogo da seleção brasileira feminina de futebol, rivalidade com as americanas, a bandeira da Coreia do Sul colocada por engano no telão da partida da Coreia do Norte). Mas nenhuma referência ao que está acontecendo hoje. No Jornal Hoje desta quinta-feira, os JO 2012 não foram noticiados.

 Vai que o telespectador fica sabendo e sintoniza na Record?…

 

 

 

Notas sobre a transmissão dos Jogos Olímpicos 1 – O semi silêncio da Rede Globo em tempos de notícia mercadoria

Na Rede Globo, emissora considerada a segunda maior rede de TV comercial do mundo, não houve contagem regressiva. A peregrinação da tocha, grande evento propagandístico a circular pelo mundo, foi ignorada neste ciclo olímpico (sim, ela rodou novamente o mundo: até o próximo dia 27 de julho, terá passado pela mão de 8000 pessoas durante 70 dias de percurso).

A dois dias da sua abertura oficial, os Jogos Olímpicos de Londres 2012 (JO 2012) começam hoje, com o início do torneio de futebol feminino e o primeiro jogo da seleção brasileira que tem em Marta, 5 vezes eleita a melhor jogadora do mundo na modalidade, seu principal ícone. Ainda assim, o megaevento esportivo passou despercebido no primeiro telejornal de cobertura nacional da grade diária da Rede Globo, o Bom Dia Brasil.

 Um importante foco para análises decorre do fato da Rede Globo ter perdido a disputa pela aquisição dos direitos dos JO 2012 para a rival Rede Record, única emissora aberta de televisão que transmitirá o evento no Brasil. A disputa entre as redes não é nova e envolve, para além dos altos investimentos concentrados sobretudo no tripé esportes, jornalismo e telenovelas, sérias acusações mútuas (1). De um lado, a Record acusa a Globo de práticas que mantém um oligopólio sobre o setor e de relações ilícitas com a CBF e dirigentes de clubes de futebol brasileiros. Do outro, a Globo há tempos denuncia o financiamento da Record via Igreja Universal do Reino de Deus, ação que teria possibilitado a compra dos direitos de transmissão dos JO 2012 por cerca de 60 milhões de reais, dobro do valor de mercado inicialmente previsto para a negociação.

 Teremos nas próximas semanas um privilegiado campo para observar, no âmbito da mídia esportiva, como se comportam a produção e veiculação da informação. Diante deste panorama de disputas comerciais que giram em torno de um dos maiores eventos esportivos e, consequentemente, econômicos do mundo, está em pauta a discussão da função pública do jornalismo, sua tão cara – e ao mesmo tempo frágil – relação com a objetividade, a imparcialidade, a relevância social (2).

Ao reagir à perda dos direitos de transmissão dos JO 2012 com um semi silêncio que parece visar diminuir a importância do megaevento nos seus telejornais, a Rede Globo explicita o que há muito já se sabe: para as redes privadas de comunicação, jornalismo não é serviço público, notícia é produto vendível, mercadoria. É seguindo essa mesma lógica que os noticiários esportivos se aproximam cada vez mais de uma formatação espetacularizada. No meio da suposta conexão que deveria existir entre realidade social e realidade midiática, estão escancarados critérios de noticiabilidade que envolvem potenciais de vendas e disputas comerciais. E viva a indústria do entretenimento*.

* No dia em que começam os Jogos Olímpicos de Londres 2012, o destaque esportivo do Bom Dia Brasil foi o Tospericargerja, homem que recebeu o nome exótico em homenagem aos ídolos da Copa do Mundo de Futebol de 1970…

 (1) Sobre as disputas pelos direitos de transmissão entre Globo e Record, ver o texto Disputa inflaciona mercado de direitos de transmissão”, de Valério Cruz Brittos e Anderson David Gomes dos Santos, publicado no site do Observatório da Imprensa.


(2) Sobre a função pública do jornalista, ver o artigo “A função pública do jornalista: da imparcialidade à coesão social”, de Mariano Ure, publicado na Revista Estudos em Jornalismo e Mídia.

Publicado em http://observatoriomidiaesportiva.blogspot.com.br/2012/07/notas-sobre-transmissao-dos-jogos.html

 

 

 

Oração pela delicadeza

Algumas coisas com as quais me deparo por essa vida me tiram o sono. E adoro a maioria delas. Elas são simples, tantas vezes ininteligíveis:

 Um verso. Um tom. Uma imagem. Um sentimento. Um gol. Uma sensação.

As canções me tiram o sono. Me despertam em um embalar que é para a vida.

Esta madrugada fui embalado por uma “Oração”.

Gravada pela “Banda mais bonita da cidade”, um grupo curitibano, a canção do compositor Leo Fressato ganhou a internet nos últimos dias em um clipe filmado em plano sequência de audio e vídeo.

Feita para ser delicada, bonitinha, piegas, a canção de versos curtos é repetida ao longo de 6 minutos de uma câmera que transita por cômodos de uma casa, que passeia por pessoas, suas vozes e instrumentos. Repetida coletivamente como em um mantra, uma prece, uma oração pela delicadeza. Repetida por mais de um milhão e meio de pessoas no youtube desde que foi postada no último dia 17 de maio. Aclamada por milhares de pessoas por ter cultivado um momento de emoção, a até então desconhecida “Banda mais bonita da cidade” caiu nas vozes e corações da rede pelo Brasil.

Há muito o que refletir (agora com o olhar de pesquisador) sobre os nuances da cultura na internet…

A Banda Mais Bonita da Cidade é formada por Uyara Torrente (vocal), Vinícius Nisi (violão, teclado), Rodrigo Lemos (banjolele e guitarra), Diego Plaça (violão e baixo) e Luís Bourscheidt (percussão e bateria).

Leo Frassato, compositor da canção e amigo da banda, é o músico que abre o clipe e passeia pela casa segurando um microfone (gravador).

Leia mais sobre a Banda aqui.

Prosa de cantina – Educador x Antropólogo

Dentro das universidades há curtas e apressadas conversas, daquelas que se desenrolam nos intervalos, brechas e frestas da rotina, que nos nos marcam, nos indicam caminhos e nos movimentam tal qual anos de estudo.

Foi em um desses breves instantes de prosa, com goles de café ditando o ritmo lento e profundo da inspiração-respiração que restaura o fôlego da alma, que escutei de um amigo uma síntese que explicava as diferenças entre o fazer acadêmico de um educador e de um antropólogo: “o educador quer mudar o mundo; o antropólogo, menos ambicioso, só quer explicar como o mundo é”.

Embrenhar-se

O silêncio do fundo de mim atravessa a casa.

Uma ausência instalada em segundos repica de parede em parede.

É um tic tac da alma escancarando um tempo encurralado na sensação de que esse tempo não passará.

Mas prevalece o silêncio além de toda música, de todo papo, de qualquer murmúrio.

Essa ausência é da minha pele para fora.

O silêncio, pele adentro.